sábado, 17 de dezembro de 2011

CARTA ABERTA DA ABEPSS À COMUNIDADE ACADÊMICA



                                           SOBRE O RESULTADO DO ENADE/2010

A Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS) vem a público manifestar sua posição sobre o resultado do ENADE/2010 para os cursos de Serviço Social do Brasil.
Sabemos que os discentes dos diferentes cursos de Serviço Social organizados, bem como de outros cursos de nível superior, vêm se manifestando contrários à política de avaliação do ensino superior no Brasil desde o início de criação dessa proposta, antes PROVÂO e, atualmente, ENADE.
Os mesmos, através da ENESSO, vêm organizando o chamado “boicote” ao ENADE. A orientação é que os estudantes compareçam, assinem a prova, colem um adesivo afirmando o boicote e se retirem sem responderem a qualquer questão. Ou seja, os estudantes “zeram a prova”.
Essa prática vem sendo ignorada pelo INEP. Estes alunos são computados, numericamente, como se tivessem respondido às questões e não acertado nenhuma. Essa situação, evidentemente, tende a abaixar a média dos cursos cujos alunos vêm aderindo ao Boicote. Ou seja, quanto mais alunos de uma determinada unidade de formação acadêmica boicotam o ENADE, menor é a nota do ENADE da referida instituição.
Causa-nos perplexidade a postura do INEP de, ao divulgar os resultados, não considerar e nem fazer referência aos “boicotes” realizados pelos estudantes como uma forma de crítica ao sistema de avaliação, uma vez que essa postura mascara o resultado, ou seja, traz um resultado que, muitas vezes, não é a realidade.
Se a proposta do MEC/INEP é “identificar mérito e valor das instituições, áreas, cursos e programas, nas dimensões de ensino, pesquisa, extensão, gestão e formação; Melhorar a qualidade da educação superior, orientar a expansão da oferta; Promover a responsabilidade social das IES, respeitando a identidade institucional e a autonomia” (SINAES/MEC, 2009), seria óbvio não somente trazerem a público o resultado real, mas, principalmente considerarem o boicote, uma vez que, caso contrário, os resultados ficam comprometidos nacionalmente, não traduzindo a realidade dos cursos de serviço social no Brasil. Assim sendo, indagamos qual é o verdadeiro objetivo de se avaliar o ensino superior no país, se desprezam a real situação?
NO documento da ABEPSS “INSUMOS PARA A CRÍTICA DO SISTEMA NACIONAL DE AVALIAÇÃO DA GRADUAÇÃO E DA PÓS-GRADUAÇÃO”, elaborado na gestão 2009/2010, fica explícito o posicionamento da mesma no que se refere ao ENADE e ao Boicote organizado pelos estudantes. Nesse, a ABEPSS enfatiza a necessidade de avançarmos em nossas formas de enfrentamento à lógica da avaliação sob a visão neoliberal, numa relação de total respeito à autonomia do movimento estudantil. Entretanto, indica à ENESSO a necessária discussão de estratégias de enfrentamento ao ENADE e, em particular, sobre o boicote.
No que se refere ao processo de avaliação, ainda neste documento (ABEPSS, 2010), considera que a extinção da visita in loco, feita por especialistas de cada área aos cursos para aqueles que obtiveram o CPC igual ou superior a 3, em uma escala de 1 a 5, é prejudicial.     Nos casos em que isso ocorreu, já no ENADE 2007, a avaliação da infraestrutura, instalações físicas e recursos didático-pedagógicos foi realizada, exclusivamente, pelos estudantes, através de respostas ao questionário socioeconômico do ENADE, tornando-se opcional para os cursos solicitar a visita das Comissões Externas. Neste instrumento, a infra-estrutura e o projeto pedagógico dos cursos são avaliados através de duas questões específicas. Assim, parte significativa do Conceito Preliminar dos Cursos é construída a partir, exclusivamente, da opinião dos alunos sobre a condição física das aulas práticas e sobre os planos de cursos elaborados pelos professores.
Esta mudança tem comprometido o processo de avaliação. Consideramos que, desta forma, o governo federal se retira do acompanhamento in loco da dinâmica dos cursos e repassa unicamente para os estudantes a responsabilidade de avaliar a infra-estrutura e o projeto pedagógico do seu curso.
Outra crítica realizada pela ABEPSS a este processo refere-se ao fato de que, na lógica do SINAES, predomina uma concepção onde a graduação é avaliada por atividades e conhecimentos relacionados ao ensino, excluindo a pesquisa e a extensão deste processo, o que vai de encontro com o princípio da indissociabilidade entre esses três elementos da formação. Nesta direção, o que podemos perceber na condução do SINAES, desde 2004, é que

Com a pretensão de estabelecer originalmente a avaliação como um “sistema”, a lei aprovada hoje está reduzida à vigência de instrumentos isolados estabelecidos por leis, decretos e portarias ministeriais. A reforma "por dentro" da lei, que não prevê originalmente a classificação das IES, contraria seu caráter formador, de valorização da avaliação interna e da auto-análise das IES. Ou seja, qualquer perspectiva de unidade ou totalidade se perdeu com as sucessivas reformas no sistema, que o tem tornado cada vez mais reduzido ao que originalmente era apenas uma parte dele: o ENADE. (ABEPSS, 2010, p. 10)
Nesta direção, reafirmamos nossa posição de que o ENADE não pode ser considerado parâmetro de avaliação e referência para análise da implementação das nossas diretrizes curriculares (ABEPSS, 2005).

Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social – Gestão 2011/2012

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Contribuição do Coletivo Regional “Quebrando pedras, plantando flores” ao XXXV CORESS da Região II


Companheiras e companheiros, estejam bem!
            Saudamos a tod@s @s estudantes presentes no XXXV CORESS que apesar de todos os limites da realidade objetiva estão aqui com um grande esforço e compromisso de construir um MESS e a ENESSO, cada vez mais forte e combativo/a.
            Esperamos que este encontro seja muito produtivo e enriquecedor para o conjunto do Movimento Estudantil de Serviço Social e que possamos avançar nos debates e discussões de maneira crítica e respeitosa.
            O CORESS – Conselho Regional das Entidades Estudantis de Serviço Social – é um espaço que reúne todos os DA’s e CA’s de determinada região, a ENESSO e representação discente em ABEPSS com o objetivo de deliberar sobre a pauta política do ERESS - Encontro Regional de Estudantes de Serviço Social.
Porém, para além deste objetivo principal, temos que pensar o CORESS numa perspectiva mais ampla, entendendo que este se caracteriza por ser um momento de preparação dos nossos encontros regionais que por sua vez reúnem anualmente tod@s @s estudantes em torno de discussões relacionadas aos seis eixos do MESS: conjuntura, universidade, movimento estudantil, formação profissional, cultura e opressões.
            Para pensarmos o CORESS precisamos antes pensar o sentido que atribuímos ao ERESS – Encontro Regional de Estudantes de Serviço Social, bem como o seu objetivo. O ERESS não é simplesmente um espaço onde reunimos @s estudantes da região anualmente em torno de determinados debates, mais do que isso é um espaço de articulação, construção e formação política.
Dentre os vários fóruns MESS, o ERESS se caracteriza por ser um espaço de organização, articulação, mobilização, acúmulo, discussão política, e embora seja um espaço de deliberação é, sobretudo, marcado pelo seu caráter organizativo. É um encontro que reúne os mais variados sujeitos, cada qual com seu perfil e subjetividade. Nele se reúnem, em sua maioria, estudantes que não tem muita familiaridade com o movimento estudantil, mas também continua sendo um espaço de militantes políticos, por isso precisamos pensar um encontro de forma que consiga contemplar e fortalecer todos esses sujeitos com diferentes perfis.
Muitas vezes os nossos encontros tem se voltado quase que exclusivamente para militantes, dessa forma perdemos em muito o seu potencial, que como já foi dito, é um encontro principalmente de articulação e mobilização. Por isso o ERESS deve ser de fato um encontro para tod@s @s estudantes, não somente para militantes, de forma que consigamos tocar e sensibilizar tod@s. Hoje o nosso grande desafio, é pensar um encontro que contemple todos os anseios, que proporcionem discussões que consigam dialogar com tod@s @s estudantes, que faça o estudante se sentir parte, se enxergar nesse meio e reconhecer-se nos outros.
            Além de pensarmos um encontro que abarque toda essa pluralidade de estudantes, é preciso repensar também o formato adotado. Há tempos estamos utilizando o formato de mesas em nossos encontros, que apesar de serem muito ricas nas discussões propostas, acabam se tornando cansativas pelo seu grande número (seis mesas no total) e na maioria das vezes não proporcionam o debate e a articulação entre @s estudantes.
            Muitas vezes os debates propostos não avançam e nem cativam @ estudante além de não ocorrer de forma ampla, pois o espaço para intervenção é bastante restrito e inibidor. Há também a necessidade de socializar os debates das oficinas para que os demais estudantes possam ser contemplados com a diversidade dos debates. As oficinas que são realizadas ficam nelas mesmas e não são socializadas para quem não participa.
            Precisamos garantir uma maior integração, tanto dos estudantes entre si como com os debates propostos e a metodologia Josué de Castro tem proporcionado uma maior eficácia aos encontros em que foi modificada para a conjuntura, como a utilização dos grupos de discussão, a intervenção visual, a mística, a não separação do trabalho intelectual e manual através dos núcleos de base entre outras, proporcionando a integração de estudantes de escolas diferentes, uma maior noção do espaço coletivo e a não exploração do homem pelo homem.
            É fundamental repensar esse formato juntamente com a metodologia utilizada. Precisamos formular novas estratégias que tornem nossos encontros mais dinâmicos e que cativem mais @s estudantes.
O objetivo nesse momento histórico é trazer os estudantes para a luta. Trazer novos estudantes e fortalecer o acúmulo político dos então já militantes. Acúmulo de forças... No CORESS devemos nos perguntar o que queremos para os nossos encontros. O ERESS deve trazer debates que indicam algumas tarefas a serem cumpridas. Discussões que precisam ser feitas e aprofundadas, a partir do momento que o CORESS é um espaço preparatório.
O CORESS é um momento de aprendizado e seu caráter pedagógico deve ser favorecido. Devemos garantir propostas que contemplem a diversidade, e que sejam um momento de construção das propostas e principalmente do movimento.

Desejamos boas e fraternas discussões pra tod@s!

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Contribuição do QPPF para o ENESS/2011


REFLEXÕES PARA O MOVIMENTO ESTUDANTIL DE SERVIÇO SOCIAL - MESS

1.     O que é esse Movimento Estudantil – ME?
As primeiras movimentações estudantis (no Brasil) datam, segundo alguns autores, do final do século XIX, mas é somente na primeira metade do século XX que os estudantes dão mais consistência a sua organização, criando a União Nacional dos Estudantes – UNE – e pautando lutas, como por exemplo, a campanha “O Petróleo é Nosso!”
Para um melhor entendimento do que seja o Movimento Estudantil, faz-se necessário fixarmos algumas prerrogativas para fundamentarmos a nossa concepção. Primeiramente, o ME é feito, em sua maioria, por estudantes que, como nós; que precisam estagiar, trabalhar ou correr atrás de uma bolsa para que possam manter-se na universidade. Da mesma forma, é feito por estudantes com um perfil elitista e alheio aos problemas da sociedade, perfil este fortemente veiculado pela série “Malhação”. Segundo que, ao admitirmos que esta sociedade é marcada fundamentalmente pela divisão e luta de classes, e é desse prisma que analisamos as relações sociais, podemos concluir que, sendo o estudante uma categoria social heterogênea, identificaremos, no seu interior, sujeitos pertencentes a classes sociais distintas, e por vezes antagônicas. A isso atribuímos o seu caráter policlassista. Portanto, existem estudantes ricos e estudantes pobres, burgueses e proletários e não uma coisa só... Ainda neste caminho, companheiros e companheiras, estaremos pelo resto de nossas vidas na condição de estudantes, entendendo aqui tudo o que caracteriza esta categoria? Podemos até gostar de estudar e isso é positivo, mas a nossa condição estudantil é temporária. Daí que alguns cravam a assertiva: a categoria estudante é uma categoria de transição. Desta forma o ME é marcado pela transitoriedade de seus militantes.
Falta, agora, somente delimitarmos o nosso território, o nosso lugar, o nosso lócus de atuação. Seria correto fazer isso? Pois bem, pensando o movimento estudantil universitário, podemos dizer que o nosso território de atuação seria, obviamente, a universidade. Porém se ampliarmos o nosso horizonte, veremos que a universidade não está fora da dinâmica social, pelo contrário, está inserida e enraizada na sociedade, logo, esta é, também, ambiente de intervenção do ME. Se limitarmos a nossa atuação ao meio acadêmico, limitamos, da mesma forma, qualitativamente, o nosso potencial de transformação. E numa lógica inversa, se só fazemos movimento para além dos muros da universidade, perdemos de vista aquilo que inicialmente nos uniu: a luta por uma educação pública, gratuita, de qualidade, laica e popular. Assim sendo, o Movimento Estudantil deve estar sempre articulando as suas reivindicações específicas (assistência estudantil, restaurantes universitários, salas de aula confortáveis, laboratórios bem equipados etc.) com as reivindicações mais gerais (reforma agrária, democratização da comunicação, lutas anticapitalistas, etc.) da sociedade.

2.     Uma visão sobre o Movimento Estudantil - ME - na atualidade
Analisar a situação do Movimento Estudantil, no contexto em que vivemos, exige um esforço redobrado por parte de seus militantes para buscar compreender a realidade, identificar os verdadeiros desafios e formular propostas de enfrentamento aos mesmos visando a sua superação. Entendendo que o ME não está imune aos vetores conjunturais que determinam o cenário político da luta de classes, antes de qualquer abordagem específica sobre o movimento, necessitamos apresentar, ainda que brevemente e sem a pretensão de esgotar os elementos para o debate, as linhas de conflitos traçadas no presente momento histórico.
Observar a conjuntura política do cenário brasileiro não é algo muito animador. Pelo contrário, são colocados pela realidade inúmeros desafios aparentemente insolúveis. O momento atual é de extrema dificuldade para os/as lutadores/as sociais. Deparamo-nos com uma esquerda bastante debilitada a nível organizacional, sem um projeto que consiga reunir seus estilhaços espalhados pelo vasto campo que é a esquerda para assim fortalecer a luta pela transformação social. Ferramentas que antes impulsionavam a luta das/os trabalhadoras/es contra o capital, hoje se aliam a ele provocando imensa confusão acerca do que seja a nossa estratégia, o nosso objetivo final, e nesse mesmo caminho, desencadeando uma onda fragmentária em toda a esquerda brasileira, agravada ainda mais pela política social-liberal-desenvolvimentista do governo Lula e continuada por sua sucessora, a presidenta Dilma. Afora os elementos citados, presenciamos um dos maiores momentos de criminalização aos Movimentos Sociais – MS, empreendidos pela mídia corporativa mais conservadora do Brasil, já representada tantas vezes pela “TV Globo” e a revista “Veja” em ataques virulentos contra os MS’s, em especial contra o MST. Decorre e persiste nesta conjuntura o tão falado período (prolongado) de refluxo e descenso das lutas de massa, que não devem ser entendidos, superficialmente, como marca dessa nova geração de lutadores/as, nem tampouco reproduzido em discursos de maneira acrítica. Temos, tão somente, um presente resultante de determinações imbricadas a um contexto bastante adverso para aqueles/as que defendem o projeto socialista.
Tendo feito estas considerações iniciais e inserido o Movimento Estudantil neste universo de contradições, quando falamos em crise, precisamos entender que esta não atinge somente ao ME, porém tem expressões mais particulares neste movimento, ou seja, a crise não pertence ou emana do Movimento Estudantil. É sim uma crise que atinge a todos os Movimentos Sociais, inclusive este ao qual estamos nos referindo. E a partir da constatação de características específicas a este movimento, podemos, por conseguinte, afirmar que, em certa medida, a crise que nos atinge se expressa de forma diferenciada e particular, dentro de um contexto crísico mais geral.
Para entendermos o Movimento Estudantil em sua totalidade, não podemos prescindir das mudanças estruturais e conjunturais operadas no ensino superior e no próprio ME enquanto movimento social. E neste quadro de análise, a década de 90 é central na reconfiguração do mundo universitário, pois ao longo desses anos regidos pelo receituário neoliberal, o número de instituições privadas de ensino superior – IPES – cresceu assustadoramente, dando um novo direcionamento a produção do conhecimento, agora explicitamente, a serviço dos interesses privativos, e alterando estruturalmente o lugar (agora com um número maior de instituições de ensino superior no âmbito privado) de atuação do ME. Essas mudanças trazem em si experiências de sociabilidades para os\as estudantes cada vez mais fragmentadas, tornando ainda mais heterogênea essa categoria, embora se conserve o que há de substancial: continuam todas\os a serem estudantes. Vale salientar que quanto mais a universidade segue uma perspectiva mercantil, mais se distancia do horizonte da luta política. Contraditoriamente, em detrimento da maior concentração de vagas nas IPES, a produção de pesquisa está concentrada nas universidades públicas. Identificamos assim, que houve uma ampliação de vagas no ensino superior privado, porém que essas instituições, em sua maioria, garantem apenas o ensino, quebrando, consequentemente, o tripé educacional ensino-pesquisa-extensão. Não estamos com isso dizendo que a universidade pública é o reduto de qualidade educacional do nosso país, nem que seus estudantes são mais politizados. Não é isso. Mesmo tendo o estatuto de pública, ela vem sofrendo um processo de sucateamento, desmonte e privatização assaz preocupante, atingindo com igual força a qualidade do ensino das/os estudantes que nela estão. A crítica que fazemos se fundamenta na afirmação de um modelo de universidade (pública, gratuita, presencial, laica, de qualidade e popular) defendida por nós, que é antagônico ao apresentado pela classe dominante para o desenvolvimento do ensino superior no Brasil.
Pensando a organização do ME na esfera privada o contexto se complexifica ainda mais. Em algumas IPES a organização das/os estudantes é praticamente barrada, vide o autoritarismo que em algumas instituições chega inclusive a impedir a realização de atividades do ME das mais simples, como por exemplo, o repasse de informações em salas. As/os estudantes ficam na dependência de uma autorização para executar tal tarefa. Quando “facilitam” a organização, na construção de CA’s\DA’s tentam orientar essas entidades para uma perspectiva burocrática e institucionalizada, descaracterizando o sentido político da organização das/os estudantes. Os CA’s\DA’s viram “células acadêmicas” (tendência identificada também nas universidades públicas, porém em menor grau), instâncias fortemente vinculadas às direções universitárias, onde não existe relação de independência, nem tampouco respeito à autonomia.  Estas são apenas algumas das inúmeras dificuldades que encontramos no decorrer da nossa militância.
Para além disto, passamos por um momento de forte descrença na ação coletiva, muito influenciada pela criminalização que os MS’s sofrem e pelo espírito capitalista neoliberal, que vem levando cada vez mais os seres humanos a um processo de individualização, em que para suprir as suas necessidades, estes devem procurar o mercado. Tal processo é reforçado pela ausência de conhecimento da história das lutas sociais no Brasil e também por não ter acontecido, num horizonte recente, nenhuma grande luta que envolvesse e levasse as massas para as ruas.
A inexistência de um projeto consistente e de referências ideológicas faz com que o ME fique à deriva, sem uma direção firme e sem uma intervenção qualificada que gere acúmulo de forças, o que dificulta e muito na identificação dos nossos verdadeiros inimigos e dos nossos aliados, e por não identificá-los, o movimento cai diversas vezes em disputas intestinas que só agravam ainda mais esse contexto de crise. Não seria exagero afirmar que hoje o ME não tem tocado nenhuma luta com rebatimentos que pesem na disputa mais geral da sociedade, na luta de classes. Pelo contrário, as disputas fratricidas em que se afunda, é um processo de auto-aniquilação que enfraquece a esquerda, fortalecendo o seu oposto, a direita, o bloco dominante.
A saída da crise na qual está imerso o Movimento Estudantil, passa necessariamente pela “capacidade de unificar experiências com o potencial de contestação, de luta e de organização”, desenvolvendo também as condições objetivas e subjetivas para que as contradições, tanto na universidade como na sociedade, sejam explicitadas e acirrem-se mais e mais. Não estamos aqui delegando ao ME a tarefa de solucionar os problemas da esquerda brasileira, estamos simplesmente afirmando que a superação dessa crise se dará de forma articulada, e não através de uma estratégia corporativista. Ao movimento que fazemos parte, cabe perceber quais são seus desafios políticos e organizativos, e a partir dessa identificação, elaborar formas de enfrentamento que nos conduzam a um patamar de disputa mais elevado, onde as debilidades localizadas hoje por nós tenham sido superadas.

3.     O dilema da União Nacional dos\as Estudantes – UNE
Ao longo de sua trajetória o Movimento Estudantil brasileiro já inspirou ares dos mais diversos, tanto de lutas com significados democratizantes, como de dispersão e paralisia. A história desse movimento, em nosso país, se confunde em boa parte com a história da União Nacional dos\as Estudantes, entidade criada para, em termos bem gerais, articular e fortalecer as reivindicações estudantis. É importante frisar que não existe uma relação de identidade plena entre a história desta entidade e a do ME, pois em alguns momentos a UNE caminhou num sentido diferente (às vezes oposto) do movimento estudantil, em outros esteve passos à frente (ou atrás) nas lutas empreendidas, e ainda, em mais alguns correspondeu à sua realidade (por vezes instigante e em outras tantas, deprimente). Com isso, estamos sugerindo que não há uma relação de correspondência mecânica entre a base do movimento e a sua direção, e, ao menos que consideremos a realidade em sua totalidade de fatos e fenômenos – que são os elementos e as variáveis de fundamento para nossa leitura e intervenção sobre a realidade -, não conseguiremos perceber isso, e consequentemente falharemos na análise que terá implicações necessárias na nossa ação. Contudo, não estamos querendo dizer que a realidade da entidade será sempre oposta a do movimento. Em alguns momentos irá sim existir uma correspondência, mas não podemos tratá-la de forma mecanicista.
No atual contexto o ME passa por uma forte crise com notórios reflexos na União Nacional dos\as Estudantes. Seria um equívoco tremendo afirmar que a UNE é a responsável pela crise que atinge o ME, mas não há como negar -  pois não podemos - que esta entidade, dirigida majoritariamente pela UJS, em muitos aspectos, vem reforçando essa conjuntura. A crescente burocratização da UNE, o abismo criado entre a mesma e sua base e o adesismo por parte dos setores majoritários desta entidade ao Governo Federal, são elementos importantes para pensarmos quais vão ser as nossas táticas dentro do ME, como vai se dar a disputa por um movimento forte e com respaldo na base. Não bastassem os elementos externos condicionantes desta crise, temos outros tantos elementos oriundos da nossa própria organização. E é bom lembrar que esses elementos, digamos assim, “internos”, não estão localizados somente na UNE, nem, talvez, sejam esses os principais. A crise que nós presenciamos não é uma crise de entidade, é uma crise que atinge o movimento estudantil de forma geral e, por conseguinte, que tem expressões claras nas suas entidades representativas, assim como acontece na UNE. Ademais, vivenciamos uma crise de hegemonia dentro do ME, onde a concepção de movimento pautada na ruptura com a ordem capitalista há muito perdeu força, apenas alguns grupos (poucos) mantem a bandeira do socialismo levantada e esses, por dificuldades outras, em seus surtos radicalóides, muitas vezes são vítimas de si mesmos – para o que Lênin chamaria de “esquerdismo, a doença infantil do comunismo”. Sendo uma crise de hegemonia, as tarefas para sair deste foço são ainda mais difíceis, e precisaremos ter muito cuidado, ser precisos na análise, caso contrário, corremos o risco de afundar ainda mais o ME em seus problemas. Não adianta fórmulas substitutivas, criação de novos aparelhos, porque se os problemas estão, também, instalados na base, podemos construir dez entidades, que nenhuma terá respaldo e base real, a não ser a do grupo que tomou para si essa tarefa. Desta forma, a prioridade do Movimento Estudantil, daqueles\as que se reivindicam socialistas, deve ser pela disputa na base do movimento, politizando e ampliando as suas lutas corporativas, envolvendo-se nas lutas mais gerais ao lado dos movimentos sociais e da classe trabalhadora, em suma, trabalhando para que as nossas reivindicações sejam fruto de demandas reais e concretas, da nossa íntima e orgânica ligação com a base do movimento e com os problemas da sociedade como um todo.

4.     Sobre a Executiva Nacional dos\as Estudantes de Serviço Social - ENESSO
Do ENESS de Londrina, em 2008, pra cá o MESS e a ENESSO vem enfrentando algumas dificuldades para tocar as suas bandeiras de luta. Naquele ano ficamos sem a Coordenação Nacional da ENESSO – por conta de uma fraude na plenária final envolvendo alguns militantes do PT - o que trouxe prejuízos para a nossa organização, tendo em vista que sem essa articulação nacional, as atividades da Executiva continuaram a ser tocadas em cada região de forma fragmentada e desarticulada, sem uma linha nacional bem definida. A despeito disso, com a não eleição da CN – ENESSO foi interrompido um longo e profícuo período de acúmulo de debates e lutas que foram levadas a cabo por gestões passadas da ENESSO. Por conta dessa interrupção as gestões subseqüentes tiveram que iniciar praticamente do zero no que diz respeito ao acúmulo da ENESSO sobre algumas discussões. Documentos foram perdidos, outros ainda estão espalhados pelo país, e nossa história volta a sofrer com lacunas, momentos em branco da nossa trajetória.
Passado um ano sem Coordenação Nacional, chegamos ao ENESS do Rio de Janeiro, em 2009, um tanto debilitados a nível de organização. Com os agrupamentos existentes no MESS praticamente extintos (ou em processo de extinção), a disputa se deu de uma forma muito rasteira, tendo as eleições da CN – ENESSO como alvo principal do ENESS, refletindo negativamente no debate programático, que foi deixado em segundo plano. A chapa eleita era composta por militantes da corrente interna do MESS “A Saída é Pela Esquerda”, tendência com forte vínculo ao PSTU. Nesse mesmo ano esta tendência tinha conseguido se eleger para várias Coordenações Regionais da ENESSO, tornando-se, talvez, a maior e mais forte corrente naquele momento.
Expectativas criadas e rapidamente frustradas: o coletivo “A Saída é Pela Esquerda” pouco conseguiu fazer no curto tempo em que passou a frente da Executiva, alguns se arriscam a dizer, inclusive, que nada fizeram, a não ser forçar a construção da ANEL, negligenciando todo um trabalho fruto de amplas discussões caracterizadas pelas deliberações tiradas no nosso encontro nacional.
ENESS de Teresina em 2010, ano de revisão estatutária: novamente as discussões se dão de forma atropelada, ainda que alguns grupos tenham tentado (e por sinal, alguns tenham conseguido) garantir o mínimo de debate, tanto no que se refere à revisão do estatuto da ENESSO, como em relação à discussão de propostas de trabalho para próxima gestão da executiva. Mudanças importantes foram feitas no nosso estatuto, como por exemplo, a retirada da União Nacional dos\as Estudantes enquanto entidade histórica que representa o conjunto do Movimento Estudantil brasileiro; e também a descentralização da Coordenação Nacional da ENESSO, que, obrigatoriamente, deve ter agora representantes em pelo menos três regiões diferentes. No que concerne à retirada da UNE do Estatuto da ENESSO, nós do “QPPF” avaliamos que esta foi uma decisão precipitada. Consideramos que não tínhamos condições, pensando estrategicamente a organização do ME a nível nacional, para “romper” em definitivo com esta entidade. O ME ainda não forjou uma alternativa real, com amplo respaldo da base, à União Nacional dos\as Estudantes. É bem verdade que esta entidade está muito distante de sua base, que a mesma está extremamente burocratizada etc. Não nos omitimos no momento da crítica, pelo contrário, devemos ser muito severos quando a fazemos, visto que o campo majoritário vem dando um rumo à UNE totalmente nocivo para o Movimento Estudantil. Mas são ainda os seus congressos os mais massivos, é onde de um jeito ou de outro estão reunidos o maior número de estudantes, e é onde devemos estar para fazer a disputa política, arregimentando o maior número de estudantes possível em torno do nosso projeto.
Sobre a segunda modificação, que consideramos a mais importante, a descentralização da CN – ENESSO, pensamos que era o correto, o que tinha de ser feito, porém, um ano depois da primeira experiência de gestão descentralizada, constatamos as dificuldades encontradas pelos coletivos que compuseram a CN, e fica evidente o despreparo dos grupos militantes do MESS para a condução de uma gestão descentralizada. Do nosso ponto de vista, as gestões centralizadas estavam esbarrando em limites (entre tantos) que dizem respeito à forma organizativa como era pensada a CN. Desse modo, a descentralização fazia-se necessária. Porém os coletivos existentes no MESS, não estavam preparados para assumir a tarefa de tocar uma gestão seguindo a nova estrutura da ENESSO, e naquele momento, concluímos que foi um equívoco ter descentralizado a Coordenação Nacional, ainda que tenha sido unânime esta decisão. Teremos pela frente mais duas gestões descentralizadas, e precisamos nos esforçar ao máximo para garantir o êxito da ENESSO, lutar para que a descentralização, ao final desse triênio, até a próxima revisão estatutária, tenha rendido frutos para a Executiva Nacional das/os Estudantes de Serviço Social.  
Feito já esse rápido retrospecto da história recente da nossa Executiva, considerando ser ainda necessário que nos aprofundemos mais sobre a realidade e as particularidades do MESS, convidamos todas e todos a pensar as seguintes questões: Quais são as tarefas do MESS e da ENESSO? O que está impedindo que essas tarefas sejam realizadas? E quais desafios precisamos superar para que possamos avançar na nossa organização e consequentemente na nossa luta? Três perguntas relativamente simples, amplas, e às quais não pretendemos dar respostas prontas e acabadas, mas, tão somente, levantar elementos para refletirmos sobre as mesmas.
O Movimento Estudantil de Serviço Social é uma das expressões do Movimento Estudantil, uma das formas de como ele se manifesta; representa o movimento estudantil de uma área, de um curso. Como movimento social de educação somos um movimento feito por estudantes, com as nossas demandas, reivindicações e lutas específicas. Como movimento de esquerda somos um movimento que luta pela ruptura com a ordem capitalista, afirmando o Socialismo em nossos discursos e em nossa prática, sem deixar de ser um movimento social que tem como pauta central, e nesse mesmo sentido, estratégica, a luta por uma Educação pública, gratuita, presencial, de qualidade, laica e popular. Assim no MESS e na ENESSO buscamos a qualidade na formação profissional, o que tem íntima relação com o projeto de universidade que defendemos, e que por sua vez, num âmbito mais geral, também se relaciona com o projeto de sociedade que galgamos materializar. A tarefa principal, em linhas bem gerais, deve ser o de envolver mais e mais estudantes em torno desses projetos de formação profissional, de universidade e de sociedade.
Sem falar nos elementos conjunturais que atingem toda a esquerda (descenso das lutas de massa, fragmentação das experiências políticas e do bloco de esquerda, descrença nas ações coletivas, ausência de projeto que unifique todos os setores que lutam pelo socialismo, etc.), pois que em outro momento foram feitas as devidas considerações, buscamos, na ocasião, identificar aquilo que nos é mais íntimo, particular; localizar os obstáculos advindos da nossa própria dinâmica militante no MESS e na ENESSO – ainda que alguns deles nem sejam tão particulares assim.

5.     Questões que o MESS precisa (re)pensar
O problema das Finanças: para que toda e qualquer organização política possa realizar as suas atividades, faz-se necessário o planejamento bem elaborado e criativo da política financeira, caso contrário estará fatalmente destinada ao malogro, à paralisia e esclerose gradual de tudo que envolve a sua estrutura organizativa (corpo dirigente, base, etc.). Faz um tempo a ENESSO vem enfrentando essa dificuldade acentuadamente. Em parte pela subestimação – consciente ou não - dessa pasta (coordenação de finanças), reforçada pela crença romântica de que a vontade revolucionária é suficiente para materialização do projeto que defendemos, o que inversamente acaba por negar a necessidade de condições materiais favoráveis para concreção de tal objetivo – sofisma, para nossa felicidade, solúvel -, em parte pelo abismo ainda crescente entre a direção da Executiva e sua base, resultando gravemente numa relação de estranhamento, onde as entidades de base (uma das fontes de financiamento da ENESSO) não se reconhecem na representação e algumas vezes não estão nem cientes da existência da mesma. Este quadro é reproduzido e agravado concomitantemente em vista da inexistência de uma política financeira sistemática e eficaz articulada ao desprezo pelo trabalho de base, pois na medida em que a ENESSO não tem finanças, ela encontra dificuldades para chegar até a base, e em contra partida esta continua ignorando aquela (salvo exceções) num processo de retroalimentação confuso e funesto. Os meios utilizados para gerar finanças (anuidades, divisão dos lucros dos nossos encontros, doações de entidades companheiras) em si não são os responsáveis por esse problema, mas sim o que foi citado acima, e para além do que foi dito, existem também outros problemas que dificultam ainda mais essa situação, problemas estes a serem tratados mais a frente.
O problema da centralidade no MESS e na ENESSO: no Movimento Estudantil há, basicamente, duas formas de atuação com abrangências diferenciadas: a atuação no movimento geral, mais relacionada ao ambiente de estudo (escolas, universidades), e no movimento de área que tem relação mais direta com o curso, com a formação profissional. Por vezes a militância do ME está envolvida nesses dois âmbitos do movimento, no entanto a atenção dada ao movimento geral é superior à direcionada ao movimento de área, que por sua vez tem suas atividades e prioridades deixadas em segundo plano ou até mesmo negligenciadas. São diversos os motivos que explicam essa situação, um deles é o fato de que o movimento geral, em tese, rompe com as barreiras do corporativismo do movimento de área, e em certa medida essa concepção está correta, porém não se pode generalizar, pois existem muitos movimentos de área que compartilham de uma visão não restrita da luta estudantil, superando o corporativismo de algumas organizações desse meio. E por outro lado, algumas organizações do ME geral não conseguem extrapolar os limites de sua especificidade. Outro elemento que nos ajuda a pensar esse problema é a diferença das dinâmicas desses dois âmbitos do movimento: no ME geral a relação cotidiana – o que possibilita uma militância mais orgânica - com os problemas da universidade, bem como com a articulação dos diversos CA’s/DA’s torna as condições mais favoráveis para a luta estudantil, diferentemente do ME de área, onde os trabalhos se dão prioritariamente no DA’s/CA’s, nas Executivas/Federações e/ou nos encontros, congressos, e por algumas vezes essas mesmas organizações fecham-se sobre si, não percebendo a complexidade dos conflitos, ainda que algumas organizações reivindiquem uma perspectiva ampla sobre as lutas sociais. Ademais, na conjuntura atual os desafios se complexificaram: o número de militantes é bastante reduzido para a quantidade de espaços e tarefas que o ME precisa cumprir. A decisão de se ausentar de alguns espaços por parte daqueles(as) que são orgânicos(as) em vista da pouca militância é difícil, mesmo que talvez fosse melhor e mais profícuo priorizar algumas lutas. Por fim isso repercute e ao mesmo tempo é causa de uma acentuada precarização da militância.
As tendências que resultam desse cenário são muito preocupantes. Dentre tantas, a relação com a base, o (não) trabalho de base é o que chama mais atenção. Articulando alguns dos elementos citados anteriormente, vê-se uma certa distância entre a base do movimento e sua direção, circunstância ainda incógnita, pois na medida em que não existem militantes centrados no trabalho do MESS e da ENESSO, por consequência, entre outras coisas, de uma precarização da militância, essa organização entra num processo de perda de base real, e em contra partida a base – (in)conscientemente – como uma raiz que nega a árvore, pode passar a não mais alimentar a sua representação, desferindo verdadeiros golpes, como de um machado, contra aquilo que lhe passou a ser estranho. Ainda que tivesse tal centralidade, nos encontros das/os estudantes de Serviço Social, os processos que se desenvolvem em volta do futuro da ENESSO se dão de forma atropelada e por vezes pautados por questões mais imediatas, como a exemplo da disputa pela diretoria da Executiva, quando esta deveria ser somente um instrumento a ser utilizado para potencializar a luta das/os estudantes, e não o fim da luta destas/es. A discussão programática é relegada ao segundo plano, as ações tornam-se espontâneas, quase sem planejamento algum, o diálogo com a base praticamente inexiste e esse quadro continua a reproduzir-se, onde a desesperança nas ações coletivas dissemina-se e é reforçada mediante a superestrutura do capital e seus mecanismos (algumas vezes o próprio movimento serve de mecanismo), fazendo assim imperar valores individualistas. Diante de tal contexto com rebatimento nas instâncias de organização da ENESSO, os grupos internos (praticamente por completo pulverizados) que entre si alternam-se na diretoria num rodízio atordoante, despreparados, não conseguem dar respostas à altura dos desafios que nos são postos. Não com isso intentamos alimentar a tese leviana de que a crise é de direção. Adentrando as questões mais problemáticas, é possível compreender que “o buraco é mais embaixo”, que a crise das direções na verdade é expressão de uma crise maior que é anterior àquela, como já foi demonstrado ao longo do texto.
Sobre a frágil unidade: se inscreve no esteio dessa análise uma questão urgente: a unidade! A tarefa de responder às questões postas ao MESS não é de uma única força que se reivindique messias, mas de todas que se situam no campo da esquerda socialista. Só desta forma poderá ser visualizado um horizonte em vias de reorganização. Até lá estamos que nem sopa de letrinha, boiando num caldo turvo, sem direção, nos chocando em nossas legendas várias e sendo engolidos a colheradas. Mas a unidade de que aqui se fala não é aquela que se dá a qualquer custa, pelo contrário, a unidade deve ser construída em cima da relação de confiança mútua entre as organizações e os sujeitos envolvidos. Esta confiança vem da disciplina, do compromisso, do respeito construído na prática. A unidade não deve passar por cima das diferenças, e é claro que essas diferenças não devem também ser pautadas intransigentemente a fim de inviabilizar a unidade. A pluralidade existe e é preciso respeitá-la em vista da convivência fraterna entre as organizações de esquerda.
Mas falando de MESS, essa unidade vem sendo despojada do seu conteúdo mais amplo e profundo, apropriada e invocada quase que exclusivamente quando os grupos se deparam com situações onde há cargos em disputa. Essa unidade de que se fala é muito frágil e é esta que, equivocadamente, estão cultivando. Em nome desta unidade questões mal resolvidas são esquecidas, debates são evitados, o foco é a distribuição de cargos em detrimento da discussão programática, e quando eleitos, exauridos das intensas disputas internas, logo se esquecem dos acordões e do êxtase proporcionado pela tomada do “poder”. Como diz o velho ditado: “é preciso ter muita calma nessa hora”. Os conchaves sustentados pelo falso consenso tendem a desabar em brigas aniquiladoras onde quem mais perde é a entidade e o movimento. É preciso pensar numa unidade que gere acúmulo de força, numa unidade que comece muito antes das disputas por cargos e que não tenham os mesmos como fim, mas que esteja para além, construindo cotidianamente a unidade no movimento.
Os nossos encontros: O MESS não tem pensado os nossos fóruns de forma que eles possam servir como um espaço pedagógico para o crescimento de novos militantes. Não se pensa a metodologia, o sujeito, o objetivo, não há um planejamento responsável dos nossos encontros, somente, na maioria das vezes, a luta por garantir os nossos palestrantes e, na plenária final – para alguns a apoteose do encontro -, pela eleição do nosso grupo para isso ou aquilo, não querendo tirar a importância desse momento.  
O que queremos dizer é que nossos encontros não são planejados de forma dinâmica e não priorizam os debates, há uma preocupação muito grande em garantir a programação – e não estamos aqui dizendo que isso não seja essencial – no formato de mesas, mas de fato, este formato adotado por nós está respondendo às necessidades atuais do MESS? Entendemos sim a importância das mesas e do debate iniciado nelas, mas conseguimos realmente garantir a continuidade deste debate? Quantas intervenções são possíveis por mesas? Entendemos que a mesa é um ponta-pé inicial para a continuidade do debate, mas na realidade, não há essa continuidade ao longo dos encontros. O que presenciamos são encontros extremamente cansativos, com os espaços freqüentemente esvaziados, e por isso devemos nos colocar na função de realizar a crítica e auto-crítica, como estão sendo nossos fóruns do MESS? Quais objetivos devemos priorizar?  Como atingir estudantes recém chegados? Como tornar nossos encontros e discussões mais dinâmicas? Mais interessantes? Mais instigantes para os novos e antigos militantes? Estamos priorizando os sujeitos que estão tendo o primeiro contato com nossos encontros? Como tornar acessível/entendível a todas/os?
Visualizamos uma preocupação muito grande dos grupos em disputar nossa entidade, nas coordenações regionais e nacionais. Defendemos sim a disputa por esses espaços, pois é neles que podemos difundir nossos posicionamentos e o que acreditamos, mas não esgotamos a possibilidade de fazer a diferença apenas nas entidades, o movimento se faz cotidianamente, priorizando a base, priorizando a formação político-ideológica da base, e é priorizando a base que vamos conseguir transformar nossa realidade, porque de nada vale uma entidade sem respaldo da base. 
São inúmeras as dificuldades colocadas, não só a nós do MESS, mas a todos os movimentos, e ao levantarmos a bandeira por uma sociedade mais justa, igualitária, para além do capital, uma sociedade socialista, precisamos pensar e repensar nossas formas de atuação, precisamos olhar nossa história, seja ela distante ou recente, precisamos analisá-la, identificar pessoas que fizeram a diferença para nós podermos estar onde estamos hoje, realizar críticas, auto-críticas, construir e desconstruir posicionamentos, precisamos estar em constante reflexão para que possamos entender a dinâmica da nossa realidade como um todo e mais especificamente a dinâmica do do Movimento Estudantil de Serviço Social. Postas nossas análises, não em sua totalidade, pois acreditamos ainda que há muito a ser analisado, pretendemos com esta exposição iniciar o debate, para que juntas/os possamos construir novas táticas e estratégias para o MESS, para que nossa atuação seja mais efetiva na direção da transformação social.


quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Contribuição do Coletivo Quebrando Pedras, Plantando Flores para o CORESS da Região 2

Proposta para o ERESS 2011
Coletivo “Quebrando Pedras, Plantando Flores”
UFPE, UFPB, UEPB, FATERN, FACEX

CONJUNTURA
Observar as lutas sociais na América latina hoje, tendo a mesma como espaço onde estão sendo travados diversos embates políticos contra os setores dominantes, muitas vezes invisibilizados pela mídia, é extremamente necessário se quisermos pensar e fortalecer a organização daqueles/as que se colocam contra as injustiças sociais, contra as mazelas provocadas pelo sistema capitalista. Mas por que exatamente este continente e suas lutas?
Na década de 1990 podemos perceber o avanço progressivo do projeto neoliberal no continente latino-americano, o que leva várias forças populares a malograrem em seus objetivos. Mas antes mesmo de serem colhidos os “velhos e bons frutos” que a América sempre ofereceu não necessariamente ao seu povo, o neoliberalismo dava sinal de colapso e por uma rejeição a este projeto, setores progressistas alçaram vôo aos governos latino-americano, imprimindo derrotas à burguesia mais conservadora que estava atrelada aos anseios estadunidenses. Nunca na história deste continente foi visto uma sucessão de “vitórias” dos campos populares como desta vez, começando pela eleição de Hugo Chavez em 1998, seguida pela de Lula em 2002, Evo Morales em 2005, Rafael Correa em 2006, etc. Embora muitas dessas vitórias não tenham refletido, necessariamente, avanços para classe trabalhadora, ensejaram uma nova atmosfera para luta de classes na América latina, e do México até a Argentina é notório a existência e influência dos movimentos populares nos avanços que tivemos, ainda que poucos.
Num contexto de crise do capital e obviamente do projeto neoliberal, analisar o avanço das forças populares no nosso continente, salientando novamente, mesmo que tímido, é mais do que um imperativo para a esquerda mundial, é pré-condição para a organização a nível internacional dos/as lutadores/as sociais e também para construção de um projeto emancipatório, entendendo aqui as questões contemporâneas postas ao movimento dos/as trabalhadores/as.
Aqui ressaltamos a importância de um dos maiores movimentos sociais – MS - do mundo nessa conjuntura: o MST. Movimento que vem exercendo um papel imprescindível para a rearticulação da classe trabalhadora e dos diversos sujeitos coletivos em luta. Experiências com o Movimento Estudantil - ME, com o movimento de mulheres, com o movimento dos/as trabalhadores/as tem sido um dos exemplos de como o MST vem contribuindo para a unificação desses sujeitos em torno de um projeto comum. E ainda mais a luta pela reforma agrária, que faz com que este movimento esteja atualmente no foco da ofensiva capitalista e no centro da luta de classes, a nível brasileiro. Por isso, propomos para o eixo de CONJUNTURA:
Mesa: As lutas sociais na América Latina
Eixo 1: O significado das lutas antiimperialistas e anticapitalistas no continente latino-americano para luta de classes: projetos societários e conquistas obtidas. (Unidade Coletivo Sindical – UCS – Atenágoras)
Eixo 2: A contribuição do MST para a organização das e dos lutadores/as sociais na América Latina. (MST)




UNIVERSIDADE
A universidade exerce um papel estratégico na sociedade, forjando-se a partir de um paradoxo e constituindo-se como um espaço de disputa pela hegemonia, que responde prioritariamente aos interesses do capital, onde a produção de conhecimento é resultado de interesses mercadológicos, individualistas e meritocráticos, descompromissados com a realidade social e sem a intenção de transformá-la e nem sequer questioná-la.
Desta forma, indicamos como alternativa à superação desta universidade funcional, uma universidade que seja produto dos interesses da classe trabalhadora. Entendendo que a função da universidade é servir a sociedade de forma crítica, transformadora e criativa, é primordial a necessidade constante de incentivo real a indissociabilidade do tripé ensino-pesquisa-extensão, tendo a educação popular como fator determinante de aproximação da sociedade com o mundo universitário. A universidade nada mais  deve ser do que um espaço para o povo e do povo, onde o conhecimento científico deve partir da realidade deste, respondendo às suas demandas enquanto classe, superando esta pseudo-indissociabilidade que é tão marcante no espaço acadêmico e que restringe a universidade cada vez mais aos seus muros e às suas micro-estruturas.
A pesquisa representa o processo de construção do saber a partir da constatação da realidade posta. O ensino representa a transmissão e apropriação do saber historicamente sistematizado. Por fim, a extensão é o processo de objetivação ou materialização desses conhecimentos onde, numa relação dialética, o tripé permite o conhecimento de dentro para fora e de fora para dentro, ou seja, universidade-sociedade.
Destarte, por uma universidade pública, gratuita, laica, presencial, de qualidade, popular e que garanta a indissociabilidade do tripé ensino-pesquisa-extensão, façamos da Universidade Popular nosso horizonte estratégico!
Mesa: Caminhos e perspectivas para um projeto de Universidade Popular
Eixo 1: Como e a quem serve a universidade brasileira? (Roberto Leher)
Eixo 2: Um espaço de construção de conhecimento, um espaço de disputa pela hegemonia (MST)
Eixo 3: Uma perspectiva Popular (Movimento Universidade Popular – MUP)



OPRESSÕES
Partindo da condição sócio-histórica da homossexualidade como parte constitutiva das relações sociais e relacionando com a atual conjuntura que, constrói um padrão de ideal “humano”, a discussão acerca deste assunto requer relacionar as intencionalidades sociais de controle por meio da estigmatização para assim interagir com a vasta disseminação do preconceito e discriminação desta condição como “desviante” e “desestruturante” socialmente.
            A sociedade tem seu “padrão”, que na ideologia dominante, do micro-espaço de família nuclear burguesa quando, por exemplo, alguém desse núcleo “quebra a ordem” é marginalizado e discriminado sofrendo além do preconceito introjetado também os preconceitos nos espaços de suas relações sociais.
            Considerando a América Latina como uma região onde o conservadorismo e o autoritarismo são muito fortes, a condição do homossexual é vista por um prisma homofóbico, onde a realidade da aceitação enquanto homoafetivos requer uma perseverança e resistência diante da sociedade excludente.
            Sendo assim, entendemos como pertinente e indispensável a abordagem do tema LGBT, indicando como proposta a seguinte mesa:
MESA: Sociedade o quanto a diversidade lhe incomoda?
EIXO 1: Configuração sócio-histórica da homofobia e a violação dos Direitos Humanos (Leões do Norte)
EIXO 2: Nadando contra a maré: na luta pela inserção e valorização do trabalho de travestis e transexuais. (ASTRAPA – Fernanda Benvenutty)



FORMAÇÃO PROFISSIONAL
Em dias de ofensiva neoliberal, onde o capital articula ações de reestruturação para atingir novamente seu desumanizador progresso, a formação profissional em serviço social vem sofrendo fortes conseqüências que dificultam e desmontam a efetivação de uma perspectiva crítica, firmada nos ideais de emancipação política e social.
No nível teórico, ideológico e metodológico percebe-se uma reintrodução do conservadorismo, travestido em uma análise pós-moderna de inovação que traz consigo uma interpretação fragmentária da realidade, perdendo a abstração de determinantes macroestruturais. Com a proliferação desqualificada das instituições de ensino superior no Brasil, marca-se um processo de levantamento de dados, que simplesmente comprovem que está ocorrendo investimentos em educação, maqueando uma verdadeira situação de precarização. Percebemos assim, o campo primordial para o avanço desta perspectiva pós-moderna.
            Contudo, como a categoria pode enfrentar esta situação, será possível além de defender também ofender? Sim, porém, não estamos com isso insinuando que existe uma receita pronta para a solução dos nossos problemas. Sabemos das inúmeras dificuldades encontradas na luta por uma formação de qualidade mas, afirmamos que ações em nível político coletivo devem ser nosso ponto de pauta, para que possamos assim, concretizar nossos objetivos.
MESA: Desafios contemporâneos colocados à formação profissional
EIXO 1: A reintrodução de perspectivas conservadoras e a teoria social crítica ou marxista na formação de futuros assistentes sociais. (Sâmbara)
EIXO 2: Os impactos sofridos na formação acadêmica pela proliferação desenfreada das instituições de ensino superior – IES. (Abepss)
EIXO 3: Respostas de enfrentamento à precarização do ensino e reafirmação do Projeto ético-político – PEP. (ENESSO)





MOVIMENTO ESTUDANTIL
O movimento estudantil passa por um período delicado na atual conjuntura. Entretanto, como os demais movimentos sociais, este vem construindo-se como uma articulação de resistência na contramão da ofensiva capitalista.
O sentido da coletividade se esvaiu, e no mundo do imediato são poucos os que se atrevem a favor da luta. Ainda neste contexto, apontamos uma crise de autonomia necessária a organização e direcionamento objetivo para a tática do movimento estudantil.
Uma gama de mudanças latentes vem a influenciar diretamente a articulação interna mas, segundo uma perspectiva dialética, podemos fazer uma analise a cerca destas mudanças colocando-as numa perspectiva histórico-social, traçando estratégias horizontalizadas na busca de unificar, tendo por vias o único fim expresso em suas diversas bandeiras de transformação social em direção a liberdade humana.
Salientando o fato de como as entidades de base CA’s e DA’s são primordiais na busca de firmamento dessa concepção, tendo em vista que tais mostram-se como as instituições mais próximas do corpo estudantil, o movimento vem refletindo estas características e, frente a isso, sente-se a necessidade de analisar fundamentos que direcionem sua atuação, organização e prática, para a efetivação dos ideais de emancipação.
Mesa: A necessidade orgânica de se reinventar.
Eixo 1: Concepção do ME em si e do que buscar para si. (Movimento Levante)
Eixo 2: Tática no Movimento Estudantil e seu horizonte estratégico. (Roberto Efren)
Eixo 3: Análise das tendências no MESS e suas contribuições para nossa organização e mudanças recentes ocorridas na Executiva Nacional dos/as Estudantes de Serviço Social. (ENESSO)