segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Contribuição do QPPF para o ENESS/2011


REFLEXÕES PARA O MOVIMENTO ESTUDANTIL DE SERVIÇO SOCIAL - MESS

1.     O que é esse Movimento Estudantil – ME?
As primeiras movimentações estudantis (no Brasil) datam, segundo alguns autores, do final do século XIX, mas é somente na primeira metade do século XX que os estudantes dão mais consistência a sua organização, criando a União Nacional dos Estudantes – UNE – e pautando lutas, como por exemplo, a campanha “O Petróleo é Nosso!”
Para um melhor entendimento do que seja o Movimento Estudantil, faz-se necessário fixarmos algumas prerrogativas para fundamentarmos a nossa concepção. Primeiramente, o ME é feito, em sua maioria, por estudantes que, como nós; que precisam estagiar, trabalhar ou correr atrás de uma bolsa para que possam manter-se na universidade. Da mesma forma, é feito por estudantes com um perfil elitista e alheio aos problemas da sociedade, perfil este fortemente veiculado pela série “Malhação”. Segundo que, ao admitirmos que esta sociedade é marcada fundamentalmente pela divisão e luta de classes, e é desse prisma que analisamos as relações sociais, podemos concluir que, sendo o estudante uma categoria social heterogênea, identificaremos, no seu interior, sujeitos pertencentes a classes sociais distintas, e por vezes antagônicas. A isso atribuímos o seu caráter policlassista. Portanto, existem estudantes ricos e estudantes pobres, burgueses e proletários e não uma coisa só... Ainda neste caminho, companheiros e companheiras, estaremos pelo resto de nossas vidas na condição de estudantes, entendendo aqui tudo o que caracteriza esta categoria? Podemos até gostar de estudar e isso é positivo, mas a nossa condição estudantil é temporária. Daí que alguns cravam a assertiva: a categoria estudante é uma categoria de transição. Desta forma o ME é marcado pela transitoriedade de seus militantes.
Falta, agora, somente delimitarmos o nosso território, o nosso lugar, o nosso lócus de atuação. Seria correto fazer isso? Pois bem, pensando o movimento estudantil universitário, podemos dizer que o nosso território de atuação seria, obviamente, a universidade. Porém se ampliarmos o nosso horizonte, veremos que a universidade não está fora da dinâmica social, pelo contrário, está inserida e enraizada na sociedade, logo, esta é, também, ambiente de intervenção do ME. Se limitarmos a nossa atuação ao meio acadêmico, limitamos, da mesma forma, qualitativamente, o nosso potencial de transformação. E numa lógica inversa, se só fazemos movimento para além dos muros da universidade, perdemos de vista aquilo que inicialmente nos uniu: a luta por uma educação pública, gratuita, de qualidade, laica e popular. Assim sendo, o Movimento Estudantil deve estar sempre articulando as suas reivindicações específicas (assistência estudantil, restaurantes universitários, salas de aula confortáveis, laboratórios bem equipados etc.) com as reivindicações mais gerais (reforma agrária, democratização da comunicação, lutas anticapitalistas, etc.) da sociedade.

2.     Uma visão sobre o Movimento Estudantil - ME - na atualidade
Analisar a situação do Movimento Estudantil, no contexto em que vivemos, exige um esforço redobrado por parte de seus militantes para buscar compreender a realidade, identificar os verdadeiros desafios e formular propostas de enfrentamento aos mesmos visando a sua superação. Entendendo que o ME não está imune aos vetores conjunturais que determinam o cenário político da luta de classes, antes de qualquer abordagem específica sobre o movimento, necessitamos apresentar, ainda que brevemente e sem a pretensão de esgotar os elementos para o debate, as linhas de conflitos traçadas no presente momento histórico.
Observar a conjuntura política do cenário brasileiro não é algo muito animador. Pelo contrário, são colocados pela realidade inúmeros desafios aparentemente insolúveis. O momento atual é de extrema dificuldade para os/as lutadores/as sociais. Deparamo-nos com uma esquerda bastante debilitada a nível organizacional, sem um projeto que consiga reunir seus estilhaços espalhados pelo vasto campo que é a esquerda para assim fortalecer a luta pela transformação social. Ferramentas que antes impulsionavam a luta das/os trabalhadoras/es contra o capital, hoje se aliam a ele provocando imensa confusão acerca do que seja a nossa estratégia, o nosso objetivo final, e nesse mesmo caminho, desencadeando uma onda fragmentária em toda a esquerda brasileira, agravada ainda mais pela política social-liberal-desenvolvimentista do governo Lula e continuada por sua sucessora, a presidenta Dilma. Afora os elementos citados, presenciamos um dos maiores momentos de criminalização aos Movimentos Sociais – MS, empreendidos pela mídia corporativa mais conservadora do Brasil, já representada tantas vezes pela “TV Globo” e a revista “Veja” em ataques virulentos contra os MS’s, em especial contra o MST. Decorre e persiste nesta conjuntura o tão falado período (prolongado) de refluxo e descenso das lutas de massa, que não devem ser entendidos, superficialmente, como marca dessa nova geração de lutadores/as, nem tampouco reproduzido em discursos de maneira acrítica. Temos, tão somente, um presente resultante de determinações imbricadas a um contexto bastante adverso para aqueles/as que defendem o projeto socialista.
Tendo feito estas considerações iniciais e inserido o Movimento Estudantil neste universo de contradições, quando falamos em crise, precisamos entender que esta não atinge somente ao ME, porém tem expressões mais particulares neste movimento, ou seja, a crise não pertence ou emana do Movimento Estudantil. É sim uma crise que atinge a todos os Movimentos Sociais, inclusive este ao qual estamos nos referindo. E a partir da constatação de características específicas a este movimento, podemos, por conseguinte, afirmar que, em certa medida, a crise que nos atinge se expressa de forma diferenciada e particular, dentro de um contexto crísico mais geral.
Para entendermos o Movimento Estudantil em sua totalidade, não podemos prescindir das mudanças estruturais e conjunturais operadas no ensino superior e no próprio ME enquanto movimento social. E neste quadro de análise, a década de 90 é central na reconfiguração do mundo universitário, pois ao longo desses anos regidos pelo receituário neoliberal, o número de instituições privadas de ensino superior – IPES – cresceu assustadoramente, dando um novo direcionamento a produção do conhecimento, agora explicitamente, a serviço dos interesses privativos, e alterando estruturalmente o lugar (agora com um número maior de instituições de ensino superior no âmbito privado) de atuação do ME. Essas mudanças trazem em si experiências de sociabilidades para os\as estudantes cada vez mais fragmentadas, tornando ainda mais heterogênea essa categoria, embora se conserve o que há de substancial: continuam todas\os a serem estudantes. Vale salientar que quanto mais a universidade segue uma perspectiva mercantil, mais se distancia do horizonte da luta política. Contraditoriamente, em detrimento da maior concentração de vagas nas IPES, a produção de pesquisa está concentrada nas universidades públicas. Identificamos assim, que houve uma ampliação de vagas no ensino superior privado, porém que essas instituições, em sua maioria, garantem apenas o ensino, quebrando, consequentemente, o tripé educacional ensino-pesquisa-extensão. Não estamos com isso dizendo que a universidade pública é o reduto de qualidade educacional do nosso país, nem que seus estudantes são mais politizados. Não é isso. Mesmo tendo o estatuto de pública, ela vem sofrendo um processo de sucateamento, desmonte e privatização assaz preocupante, atingindo com igual força a qualidade do ensino das/os estudantes que nela estão. A crítica que fazemos se fundamenta na afirmação de um modelo de universidade (pública, gratuita, presencial, laica, de qualidade e popular) defendida por nós, que é antagônico ao apresentado pela classe dominante para o desenvolvimento do ensino superior no Brasil.
Pensando a organização do ME na esfera privada o contexto se complexifica ainda mais. Em algumas IPES a organização das/os estudantes é praticamente barrada, vide o autoritarismo que em algumas instituições chega inclusive a impedir a realização de atividades do ME das mais simples, como por exemplo, o repasse de informações em salas. As/os estudantes ficam na dependência de uma autorização para executar tal tarefa. Quando “facilitam” a organização, na construção de CA’s\DA’s tentam orientar essas entidades para uma perspectiva burocrática e institucionalizada, descaracterizando o sentido político da organização das/os estudantes. Os CA’s\DA’s viram “células acadêmicas” (tendência identificada também nas universidades públicas, porém em menor grau), instâncias fortemente vinculadas às direções universitárias, onde não existe relação de independência, nem tampouco respeito à autonomia.  Estas são apenas algumas das inúmeras dificuldades que encontramos no decorrer da nossa militância.
Para além disto, passamos por um momento de forte descrença na ação coletiva, muito influenciada pela criminalização que os MS’s sofrem e pelo espírito capitalista neoliberal, que vem levando cada vez mais os seres humanos a um processo de individualização, em que para suprir as suas necessidades, estes devem procurar o mercado. Tal processo é reforçado pela ausência de conhecimento da história das lutas sociais no Brasil e também por não ter acontecido, num horizonte recente, nenhuma grande luta que envolvesse e levasse as massas para as ruas.
A inexistência de um projeto consistente e de referências ideológicas faz com que o ME fique à deriva, sem uma direção firme e sem uma intervenção qualificada que gere acúmulo de forças, o que dificulta e muito na identificação dos nossos verdadeiros inimigos e dos nossos aliados, e por não identificá-los, o movimento cai diversas vezes em disputas intestinas que só agravam ainda mais esse contexto de crise. Não seria exagero afirmar que hoje o ME não tem tocado nenhuma luta com rebatimentos que pesem na disputa mais geral da sociedade, na luta de classes. Pelo contrário, as disputas fratricidas em que se afunda, é um processo de auto-aniquilação que enfraquece a esquerda, fortalecendo o seu oposto, a direita, o bloco dominante.
A saída da crise na qual está imerso o Movimento Estudantil, passa necessariamente pela “capacidade de unificar experiências com o potencial de contestação, de luta e de organização”, desenvolvendo também as condições objetivas e subjetivas para que as contradições, tanto na universidade como na sociedade, sejam explicitadas e acirrem-se mais e mais. Não estamos aqui delegando ao ME a tarefa de solucionar os problemas da esquerda brasileira, estamos simplesmente afirmando que a superação dessa crise se dará de forma articulada, e não através de uma estratégia corporativista. Ao movimento que fazemos parte, cabe perceber quais são seus desafios políticos e organizativos, e a partir dessa identificação, elaborar formas de enfrentamento que nos conduzam a um patamar de disputa mais elevado, onde as debilidades localizadas hoje por nós tenham sido superadas.

3.     O dilema da União Nacional dos\as Estudantes – UNE
Ao longo de sua trajetória o Movimento Estudantil brasileiro já inspirou ares dos mais diversos, tanto de lutas com significados democratizantes, como de dispersão e paralisia. A história desse movimento, em nosso país, se confunde em boa parte com a história da União Nacional dos\as Estudantes, entidade criada para, em termos bem gerais, articular e fortalecer as reivindicações estudantis. É importante frisar que não existe uma relação de identidade plena entre a história desta entidade e a do ME, pois em alguns momentos a UNE caminhou num sentido diferente (às vezes oposto) do movimento estudantil, em outros esteve passos à frente (ou atrás) nas lutas empreendidas, e ainda, em mais alguns correspondeu à sua realidade (por vezes instigante e em outras tantas, deprimente). Com isso, estamos sugerindo que não há uma relação de correspondência mecânica entre a base do movimento e a sua direção, e, ao menos que consideremos a realidade em sua totalidade de fatos e fenômenos – que são os elementos e as variáveis de fundamento para nossa leitura e intervenção sobre a realidade -, não conseguiremos perceber isso, e consequentemente falharemos na análise que terá implicações necessárias na nossa ação. Contudo, não estamos querendo dizer que a realidade da entidade será sempre oposta a do movimento. Em alguns momentos irá sim existir uma correspondência, mas não podemos tratá-la de forma mecanicista.
No atual contexto o ME passa por uma forte crise com notórios reflexos na União Nacional dos\as Estudantes. Seria um equívoco tremendo afirmar que a UNE é a responsável pela crise que atinge o ME, mas não há como negar -  pois não podemos - que esta entidade, dirigida majoritariamente pela UJS, em muitos aspectos, vem reforçando essa conjuntura. A crescente burocratização da UNE, o abismo criado entre a mesma e sua base e o adesismo por parte dos setores majoritários desta entidade ao Governo Federal, são elementos importantes para pensarmos quais vão ser as nossas táticas dentro do ME, como vai se dar a disputa por um movimento forte e com respaldo na base. Não bastassem os elementos externos condicionantes desta crise, temos outros tantos elementos oriundos da nossa própria organização. E é bom lembrar que esses elementos, digamos assim, “internos”, não estão localizados somente na UNE, nem, talvez, sejam esses os principais. A crise que nós presenciamos não é uma crise de entidade, é uma crise que atinge o movimento estudantil de forma geral e, por conseguinte, que tem expressões claras nas suas entidades representativas, assim como acontece na UNE. Ademais, vivenciamos uma crise de hegemonia dentro do ME, onde a concepção de movimento pautada na ruptura com a ordem capitalista há muito perdeu força, apenas alguns grupos (poucos) mantem a bandeira do socialismo levantada e esses, por dificuldades outras, em seus surtos radicalóides, muitas vezes são vítimas de si mesmos – para o que Lênin chamaria de “esquerdismo, a doença infantil do comunismo”. Sendo uma crise de hegemonia, as tarefas para sair deste foço são ainda mais difíceis, e precisaremos ter muito cuidado, ser precisos na análise, caso contrário, corremos o risco de afundar ainda mais o ME em seus problemas. Não adianta fórmulas substitutivas, criação de novos aparelhos, porque se os problemas estão, também, instalados na base, podemos construir dez entidades, que nenhuma terá respaldo e base real, a não ser a do grupo que tomou para si essa tarefa. Desta forma, a prioridade do Movimento Estudantil, daqueles\as que se reivindicam socialistas, deve ser pela disputa na base do movimento, politizando e ampliando as suas lutas corporativas, envolvendo-se nas lutas mais gerais ao lado dos movimentos sociais e da classe trabalhadora, em suma, trabalhando para que as nossas reivindicações sejam fruto de demandas reais e concretas, da nossa íntima e orgânica ligação com a base do movimento e com os problemas da sociedade como um todo.

4.     Sobre a Executiva Nacional dos\as Estudantes de Serviço Social - ENESSO
Do ENESS de Londrina, em 2008, pra cá o MESS e a ENESSO vem enfrentando algumas dificuldades para tocar as suas bandeiras de luta. Naquele ano ficamos sem a Coordenação Nacional da ENESSO – por conta de uma fraude na plenária final envolvendo alguns militantes do PT - o que trouxe prejuízos para a nossa organização, tendo em vista que sem essa articulação nacional, as atividades da Executiva continuaram a ser tocadas em cada região de forma fragmentada e desarticulada, sem uma linha nacional bem definida. A despeito disso, com a não eleição da CN – ENESSO foi interrompido um longo e profícuo período de acúmulo de debates e lutas que foram levadas a cabo por gestões passadas da ENESSO. Por conta dessa interrupção as gestões subseqüentes tiveram que iniciar praticamente do zero no que diz respeito ao acúmulo da ENESSO sobre algumas discussões. Documentos foram perdidos, outros ainda estão espalhados pelo país, e nossa história volta a sofrer com lacunas, momentos em branco da nossa trajetória.
Passado um ano sem Coordenação Nacional, chegamos ao ENESS do Rio de Janeiro, em 2009, um tanto debilitados a nível de organização. Com os agrupamentos existentes no MESS praticamente extintos (ou em processo de extinção), a disputa se deu de uma forma muito rasteira, tendo as eleições da CN – ENESSO como alvo principal do ENESS, refletindo negativamente no debate programático, que foi deixado em segundo plano. A chapa eleita era composta por militantes da corrente interna do MESS “A Saída é Pela Esquerda”, tendência com forte vínculo ao PSTU. Nesse mesmo ano esta tendência tinha conseguido se eleger para várias Coordenações Regionais da ENESSO, tornando-se, talvez, a maior e mais forte corrente naquele momento.
Expectativas criadas e rapidamente frustradas: o coletivo “A Saída é Pela Esquerda” pouco conseguiu fazer no curto tempo em que passou a frente da Executiva, alguns se arriscam a dizer, inclusive, que nada fizeram, a não ser forçar a construção da ANEL, negligenciando todo um trabalho fruto de amplas discussões caracterizadas pelas deliberações tiradas no nosso encontro nacional.
ENESS de Teresina em 2010, ano de revisão estatutária: novamente as discussões se dão de forma atropelada, ainda que alguns grupos tenham tentado (e por sinal, alguns tenham conseguido) garantir o mínimo de debate, tanto no que se refere à revisão do estatuto da ENESSO, como em relação à discussão de propostas de trabalho para próxima gestão da executiva. Mudanças importantes foram feitas no nosso estatuto, como por exemplo, a retirada da União Nacional dos\as Estudantes enquanto entidade histórica que representa o conjunto do Movimento Estudantil brasileiro; e também a descentralização da Coordenação Nacional da ENESSO, que, obrigatoriamente, deve ter agora representantes em pelo menos três regiões diferentes. No que concerne à retirada da UNE do Estatuto da ENESSO, nós do “QPPF” avaliamos que esta foi uma decisão precipitada. Consideramos que não tínhamos condições, pensando estrategicamente a organização do ME a nível nacional, para “romper” em definitivo com esta entidade. O ME ainda não forjou uma alternativa real, com amplo respaldo da base, à União Nacional dos\as Estudantes. É bem verdade que esta entidade está muito distante de sua base, que a mesma está extremamente burocratizada etc. Não nos omitimos no momento da crítica, pelo contrário, devemos ser muito severos quando a fazemos, visto que o campo majoritário vem dando um rumo à UNE totalmente nocivo para o Movimento Estudantil. Mas são ainda os seus congressos os mais massivos, é onde de um jeito ou de outro estão reunidos o maior número de estudantes, e é onde devemos estar para fazer a disputa política, arregimentando o maior número de estudantes possível em torno do nosso projeto.
Sobre a segunda modificação, que consideramos a mais importante, a descentralização da CN – ENESSO, pensamos que era o correto, o que tinha de ser feito, porém, um ano depois da primeira experiência de gestão descentralizada, constatamos as dificuldades encontradas pelos coletivos que compuseram a CN, e fica evidente o despreparo dos grupos militantes do MESS para a condução de uma gestão descentralizada. Do nosso ponto de vista, as gestões centralizadas estavam esbarrando em limites (entre tantos) que dizem respeito à forma organizativa como era pensada a CN. Desse modo, a descentralização fazia-se necessária. Porém os coletivos existentes no MESS, não estavam preparados para assumir a tarefa de tocar uma gestão seguindo a nova estrutura da ENESSO, e naquele momento, concluímos que foi um equívoco ter descentralizado a Coordenação Nacional, ainda que tenha sido unânime esta decisão. Teremos pela frente mais duas gestões descentralizadas, e precisamos nos esforçar ao máximo para garantir o êxito da ENESSO, lutar para que a descentralização, ao final desse triênio, até a próxima revisão estatutária, tenha rendido frutos para a Executiva Nacional das/os Estudantes de Serviço Social.  
Feito já esse rápido retrospecto da história recente da nossa Executiva, considerando ser ainda necessário que nos aprofundemos mais sobre a realidade e as particularidades do MESS, convidamos todas e todos a pensar as seguintes questões: Quais são as tarefas do MESS e da ENESSO? O que está impedindo que essas tarefas sejam realizadas? E quais desafios precisamos superar para que possamos avançar na nossa organização e consequentemente na nossa luta? Três perguntas relativamente simples, amplas, e às quais não pretendemos dar respostas prontas e acabadas, mas, tão somente, levantar elementos para refletirmos sobre as mesmas.
O Movimento Estudantil de Serviço Social é uma das expressões do Movimento Estudantil, uma das formas de como ele se manifesta; representa o movimento estudantil de uma área, de um curso. Como movimento social de educação somos um movimento feito por estudantes, com as nossas demandas, reivindicações e lutas específicas. Como movimento de esquerda somos um movimento que luta pela ruptura com a ordem capitalista, afirmando o Socialismo em nossos discursos e em nossa prática, sem deixar de ser um movimento social que tem como pauta central, e nesse mesmo sentido, estratégica, a luta por uma Educação pública, gratuita, presencial, de qualidade, laica e popular. Assim no MESS e na ENESSO buscamos a qualidade na formação profissional, o que tem íntima relação com o projeto de universidade que defendemos, e que por sua vez, num âmbito mais geral, também se relaciona com o projeto de sociedade que galgamos materializar. A tarefa principal, em linhas bem gerais, deve ser o de envolver mais e mais estudantes em torno desses projetos de formação profissional, de universidade e de sociedade.
Sem falar nos elementos conjunturais que atingem toda a esquerda (descenso das lutas de massa, fragmentação das experiências políticas e do bloco de esquerda, descrença nas ações coletivas, ausência de projeto que unifique todos os setores que lutam pelo socialismo, etc.), pois que em outro momento foram feitas as devidas considerações, buscamos, na ocasião, identificar aquilo que nos é mais íntimo, particular; localizar os obstáculos advindos da nossa própria dinâmica militante no MESS e na ENESSO – ainda que alguns deles nem sejam tão particulares assim.

5.     Questões que o MESS precisa (re)pensar
O problema das Finanças: para que toda e qualquer organização política possa realizar as suas atividades, faz-se necessário o planejamento bem elaborado e criativo da política financeira, caso contrário estará fatalmente destinada ao malogro, à paralisia e esclerose gradual de tudo que envolve a sua estrutura organizativa (corpo dirigente, base, etc.). Faz um tempo a ENESSO vem enfrentando essa dificuldade acentuadamente. Em parte pela subestimação – consciente ou não - dessa pasta (coordenação de finanças), reforçada pela crença romântica de que a vontade revolucionária é suficiente para materialização do projeto que defendemos, o que inversamente acaba por negar a necessidade de condições materiais favoráveis para concreção de tal objetivo – sofisma, para nossa felicidade, solúvel -, em parte pelo abismo ainda crescente entre a direção da Executiva e sua base, resultando gravemente numa relação de estranhamento, onde as entidades de base (uma das fontes de financiamento da ENESSO) não se reconhecem na representação e algumas vezes não estão nem cientes da existência da mesma. Este quadro é reproduzido e agravado concomitantemente em vista da inexistência de uma política financeira sistemática e eficaz articulada ao desprezo pelo trabalho de base, pois na medida em que a ENESSO não tem finanças, ela encontra dificuldades para chegar até a base, e em contra partida esta continua ignorando aquela (salvo exceções) num processo de retroalimentação confuso e funesto. Os meios utilizados para gerar finanças (anuidades, divisão dos lucros dos nossos encontros, doações de entidades companheiras) em si não são os responsáveis por esse problema, mas sim o que foi citado acima, e para além do que foi dito, existem também outros problemas que dificultam ainda mais essa situação, problemas estes a serem tratados mais a frente.
O problema da centralidade no MESS e na ENESSO: no Movimento Estudantil há, basicamente, duas formas de atuação com abrangências diferenciadas: a atuação no movimento geral, mais relacionada ao ambiente de estudo (escolas, universidades), e no movimento de área que tem relação mais direta com o curso, com a formação profissional. Por vezes a militância do ME está envolvida nesses dois âmbitos do movimento, no entanto a atenção dada ao movimento geral é superior à direcionada ao movimento de área, que por sua vez tem suas atividades e prioridades deixadas em segundo plano ou até mesmo negligenciadas. São diversos os motivos que explicam essa situação, um deles é o fato de que o movimento geral, em tese, rompe com as barreiras do corporativismo do movimento de área, e em certa medida essa concepção está correta, porém não se pode generalizar, pois existem muitos movimentos de área que compartilham de uma visão não restrita da luta estudantil, superando o corporativismo de algumas organizações desse meio. E por outro lado, algumas organizações do ME geral não conseguem extrapolar os limites de sua especificidade. Outro elemento que nos ajuda a pensar esse problema é a diferença das dinâmicas desses dois âmbitos do movimento: no ME geral a relação cotidiana – o que possibilita uma militância mais orgânica - com os problemas da universidade, bem como com a articulação dos diversos CA’s/DA’s torna as condições mais favoráveis para a luta estudantil, diferentemente do ME de área, onde os trabalhos se dão prioritariamente no DA’s/CA’s, nas Executivas/Federações e/ou nos encontros, congressos, e por algumas vezes essas mesmas organizações fecham-se sobre si, não percebendo a complexidade dos conflitos, ainda que algumas organizações reivindiquem uma perspectiva ampla sobre as lutas sociais. Ademais, na conjuntura atual os desafios se complexificaram: o número de militantes é bastante reduzido para a quantidade de espaços e tarefas que o ME precisa cumprir. A decisão de se ausentar de alguns espaços por parte daqueles(as) que são orgânicos(as) em vista da pouca militância é difícil, mesmo que talvez fosse melhor e mais profícuo priorizar algumas lutas. Por fim isso repercute e ao mesmo tempo é causa de uma acentuada precarização da militância.
As tendências que resultam desse cenário são muito preocupantes. Dentre tantas, a relação com a base, o (não) trabalho de base é o que chama mais atenção. Articulando alguns dos elementos citados anteriormente, vê-se uma certa distância entre a base do movimento e sua direção, circunstância ainda incógnita, pois na medida em que não existem militantes centrados no trabalho do MESS e da ENESSO, por consequência, entre outras coisas, de uma precarização da militância, essa organização entra num processo de perda de base real, e em contra partida a base – (in)conscientemente – como uma raiz que nega a árvore, pode passar a não mais alimentar a sua representação, desferindo verdadeiros golpes, como de um machado, contra aquilo que lhe passou a ser estranho. Ainda que tivesse tal centralidade, nos encontros das/os estudantes de Serviço Social, os processos que se desenvolvem em volta do futuro da ENESSO se dão de forma atropelada e por vezes pautados por questões mais imediatas, como a exemplo da disputa pela diretoria da Executiva, quando esta deveria ser somente um instrumento a ser utilizado para potencializar a luta das/os estudantes, e não o fim da luta destas/es. A discussão programática é relegada ao segundo plano, as ações tornam-se espontâneas, quase sem planejamento algum, o diálogo com a base praticamente inexiste e esse quadro continua a reproduzir-se, onde a desesperança nas ações coletivas dissemina-se e é reforçada mediante a superestrutura do capital e seus mecanismos (algumas vezes o próprio movimento serve de mecanismo), fazendo assim imperar valores individualistas. Diante de tal contexto com rebatimento nas instâncias de organização da ENESSO, os grupos internos (praticamente por completo pulverizados) que entre si alternam-se na diretoria num rodízio atordoante, despreparados, não conseguem dar respostas à altura dos desafios que nos são postos. Não com isso intentamos alimentar a tese leviana de que a crise é de direção. Adentrando as questões mais problemáticas, é possível compreender que “o buraco é mais embaixo”, que a crise das direções na verdade é expressão de uma crise maior que é anterior àquela, como já foi demonstrado ao longo do texto.
Sobre a frágil unidade: se inscreve no esteio dessa análise uma questão urgente: a unidade! A tarefa de responder às questões postas ao MESS não é de uma única força que se reivindique messias, mas de todas que se situam no campo da esquerda socialista. Só desta forma poderá ser visualizado um horizonte em vias de reorganização. Até lá estamos que nem sopa de letrinha, boiando num caldo turvo, sem direção, nos chocando em nossas legendas várias e sendo engolidos a colheradas. Mas a unidade de que aqui se fala não é aquela que se dá a qualquer custa, pelo contrário, a unidade deve ser construída em cima da relação de confiança mútua entre as organizações e os sujeitos envolvidos. Esta confiança vem da disciplina, do compromisso, do respeito construído na prática. A unidade não deve passar por cima das diferenças, e é claro que essas diferenças não devem também ser pautadas intransigentemente a fim de inviabilizar a unidade. A pluralidade existe e é preciso respeitá-la em vista da convivência fraterna entre as organizações de esquerda.
Mas falando de MESS, essa unidade vem sendo despojada do seu conteúdo mais amplo e profundo, apropriada e invocada quase que exclusivamente quando os grupos se deparam com situações onde há cargos em disputa. Essa unidade de que se fala é muito frágil e é esta que, equivocadamente, estão cultivando. Em nome desta unidade questões mal resolvidas são esquecidas, debates são evitados, o foco é a distribuição de cargos em detrimento da discussão programática, e quando eleitos, exauridos das intensas disputas internas, logo se esquecem dos acordões e do êxtase proporcionado pela tomada do “poder”. Como diz o velho ditado: “é preciso ter muita calma nessa hora”. Os conchaves sustentados pelo falso consenso tendem a desabar em brigas aniquiladoras onde quem mais perde é a entidade e o movimento. É preciso pensar numa unidade que gere acúmulo de força, numa unidade que comece muito antes das disputas por cargos e que não tenham os mesmos como fim, mas que esteja para além, construindo cotidianamente a unidade no movimento.
Os nossos encontros: O MESS não tem pensado os nossos fóruns de forma que eles possam servir como um espaço pedagógico para o crescimento de novos militantes. Não se pensa a metodologia, o sujeito, o objetivo, não há um planejamento responsável dos nossos encontros, somente, na maioria das vezes, a luta por garantir os nossos palestrantes e, na plenária final – para alguns a apoteose do encontro -, pela eleição do nosso grupo para isso ou aquilo, não querendo tirar a importância desse momento.  
O que queremos dizer é que nossos encontros não são planejados de forma dinâmica e não priorizam os debates, há uma preocupação muito grande em garantir a programação – e não estamos aqui dizendo que isso não seja essencial – no formato de mesas, mas de fato, este formato adotado por nós está respondendo às necessidades atuais do MESS? Entendemos sim a importância das mesas e do debate iniciado nelas, mas conseguimos realmente garantir a continuidade deste debate? Quantas intervenções são possíveis por mesas? Entendemos que a mesa é um ponta-pé inicial para a continuidade do debate, mas na realidade, não há essa continuidade ao longo dos encontros. O que presenciamos são encontros extremamente cansativos, com os espaços freqüentemente esvaziados, e por isso devemos nos colocar na função de realizar a crítica e auto-crítica, como estão sendo nossos fóruns do MESS? Quais objetivos devemos priorizar?  Como atingir estudantes recém chegados? Como tornar nossos encontros e discussões mais dinâmicas? Mais interessantes? Mais instigantes para os novos e antigos militantes? Estamos priorizando os sujeitos que estão tendo o primeiro contato com nossos encontros? Como tornar acessível/entendível a todas/os?
Visualizamos uma preocupação muito grande dos grupos em disputar nossa entidade, nas coordenações regionais e nacionais. Defendemos sim a disputa por esses espaços, pois é neles que podemos difundir nossos posicionamentos e o que acreditamos, mas não esgotamos a possibilidade de fazer a diferença apenas nas entidades, o movimento se faz cotidianamente, priorizando a base, priorizando a formação político-ideológica da base, e é priorizando a base que vamos conseguir transformar nossa realidade, porque de nada vale uma entidade sem respaldo da base. 
São inúmeras as dificuldades colocadas, não só a nós do MESS, mas a todos os movimentos, e ao levantarmos a bandeira por uma sociedade mais justa, igualitária, para além do capital, uma sociedade socialista, precisamos pensar e repensar nossas formas de atuação, precisamos olhar nossa história, seja ela distante ou recente, precisamos analisá-la, identificar pessoas que fizeram a diferença para nós podermos estar onde estamos hoje, realizar críticas, auto-críticas, construir e desconstruir posicionamentos, precisamos estar em constante reflexão para que possamos entender a dinâmica da nossa realidade como um todo e mais especificamente a dinâmica do do Movimento Estudantil de Serviço Social. Postas nossas análises, não em sua totalidade, pois acreditamos ainda que há muito a ser analisado, pretendemos com esta exposição iniciar o debate, para que juntas/os possamos construir novas táticas e estratégias para o MESS, para que nossa atuação seja mais efetiva na direção da transformação social.